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VOVÔS E VOVÓS DOS TERREIROS DE UMBANDA

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Este 13 de maio representa mais um dia de comemoração para nós da Umbanda, a respeito da elevação dos espíritos que sofreram tanto em nossas terras, deixando sangue, suor e lagrimas e que hoje estão empenhados em nos conduzirem e protegerem nas lutas cotidianas, em um planeta que passa por duras transições.

Desta vez a homenagem vai ser um pouco diferente, pois será a narrativa de três histórias de espíritos da Linha de Yorimá- Pretos velhos, que hoje se dedicam a trabalhar na senda da Umbanda, mediante os preceitos do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Que eles nos protejam de todas as intempéries, e sempre estejam junto a nós quando estivermos cansados, quando tropeçarmos, nos amparando e conduzindo.

Vamos lá:

TIA BETINA

Em um local que pertencia a uma fazenda da época do império, situada em aprazível estância próxima ao Município de Nova Friburgo, ecoam ainda, na invisibilidade, antigos ruídos, das moendas de cana, os carros de boi, os cantos sofridos, e os gemidos dos escravos sob o açoite dos feitores.

O tempo passou, muitas e muitas gerações foram e retornaram, cumprindo seus destinos e a Lei de Evolução. Pouco restou das construções daquela fazenda, hoje dividida em várias chácaras, onde não há mais plantações de cana ou café.

Num passado de poucas décadas atrás, ali se ouvia as vozes alegres das crianças brincando, latidos, balidos, muitas plantações de hortaliças, em meio á seculares e imemoriais jaboticabeiras, pereiras, araucárias e jovens laranjais. Ali, junto a estas árvores que conheceram outros tempos, uma enorme pedra granítica, próximo a uma espaçosa casa. Sob sua sombra, agora num passado recente, ainda se se encontravam antigos espíritos de escravos, a maioria ainda em grande revolta, libertos há muito do envoltório carnal, mas ainda presos aos seus medos, ódios, ressentimentos…. Assombravam a região magnetizando-a com seus fluidos doentios, e num lugar tão bonito destoavam as vibrações pesadas, que reverberavam ao redor, interferindo no equilíbrio dos moradores, que sem entender, sentiam tristezas, medos e irritabilidade inexplicáveis. Brigas, acidentes domésticos de todo tipo, aconteciam sem explicação, até que em sonho, uma entidade desencarnada que se apresentou como uma doce matrona, escrava de 1800, apareceu em sonho para a dona da casa atual, sendo esta médium e estudante do Espiritismo. O belo espírito em roupagem de antiga escrava pediu-lhe no sonho para ter paciência, pois realmente o local achava-se imantado pelas vibrações de antigos escravos que muito padeceram na mão dos violentos feitores Eles ainda sofriam, e não sabiam sair dali para esferas mais elevadas. Tia Betina, assim ela se apresentou, pediu paciência e muita oração para estes espíritos e em troca, ofereceu sua harmonia e proteção.

Aos poucos as preces feitas pela médium foram criando condições de auxiliar os espíritos sofredores/obsessores, eles aos poucos foram reencarnando e progredindo. Ao reencarnar em nova missão o ultimo ex-escravo sofrido, a médium teve novo sonho, onde Tia Betina lhe apareceu dizendo:
“Pronto, amada, os espíritos dos antigos escravos estão todos em novas encarnações na Terra e vão conseguir prosseguir de agora em diante. Suas orações auxiliaram muito e é hora de você também prosseguir”.

Aos poucos, a vida da médium foi tomando outros rumos, e mantendo os conhecimentos adquiridos na doutrina Espírita, passou a enveredar os caminhos da Umbanda, estudando e praticando seus fundamentos. Um dia, durante uma sessão de pretos velhos, durante seu transe mediúnico, viu uma linda negra se aproximando com os coloridos trajes dos africanos. Ela disse: “Minha missão também terminou quando todos aqueles escravos foram reencaminhados para novos caminhos evolutivos. Sempre estarei por perto lhe auxiliando também. Tudo tem sua razão, mas antes de tentarmos tudo entender, vamos auxiliar o próximo sempre que necessário, seja ele deste ou do outro lado do mundo. Que o Nazareno, nosso Mestre, nos guie e nos abrace espiritualmente com Seu Amor, Sua Compreensão, para sempre termos forças para prosseguir”.

E assim, segue Tia Betina, no outro lado da Vida, trabalhando nos terreiros de Umbanda, manifestando sua Luz e sua Caridade.

VOVÓ MARIA

Ela foi filha de escrava negra e cresceu entre escravos vindos do Congo, onde aprendeu a religiosidade, e a iniciação no mundo da magia e das plantas medicinais. Não tinha porém os cabelos encaracolados característicos dos africanos. Nunca ninguém entendeu seus olhos cor de mel e estes cabelos apenas levemente cacheados, que sempre gostou de deixar soltos, mesmo quando encanecidos pelos anos.

O tempo foi passando, Maria já cansada da lida pesada, passou a cuidar dos outros na senzala, sendo também chamada às vezes na Casa Grande, para receitar seus chás e garrafadas.

Certa noite, movimento inusitado ocorreu na senzala, onde dezenas de pessoas tentavam descansar do brutal trabalho diário, nos pobres feitos de bambu, desagasalhados. O capataz entrou aos berros, sacudindo com violência um esguio rapaz, que tentara fuga. O algoz indignado e tomado pelo ódio, jogou-se contra o escravo para dar o tiro fatal com seu trabuco, mas eis que Maria se levanta e se coloca na frente do jovem, sendo trespassada, e ali mesmo desencarnando.

Ao acordar, em novo plano, estava em um lindo recanto da África, intocado como há muitos séculos atrás. E acompanhando-a, uma entidade ancestral que durante muitos anos a ensinou muitas coisas sobre o Mundo Astral. Um dia, este Mestre a chamou e lhe disse “Maria, não precisas mais encarnar na Terra, mas há uma missão que tens de cumprir, que é trabalhar para ensinar o valor do Amor e da Caridade em uma religião chamada UMBANDA.

E assim, Maria tornou-se Vovó Maria, e embora tendo todo o conhecimento do Panteão Africano, ela usa seus conhecimentos dentro dos fundamentos da Umbanda, semeando sua Serenidade e Sabedoria, agora curando as feridas da Alma, dos encarnados sofredores.

Salve Vovó Maria! Salve a sua Luz!

ATOTÔ, SENHOR OBALUAIÊ!

O terreiro está na penumbra, a assistência em total silêncio, e o congá lindamente iluminado pelas velas coloridas representando os orixás. Os atabaques dão o ritmo dos variados pontos cantados, evocando a linha dos Exus e Pombogiras.

Mas antes disso, prestam homenagem ao Senhor Obaluaiê. Aos poucos surge a percepção de um outro local, fora do tempo, em outra dimensão. O médium sente o cheiro do mar, a brisa forte, visualiza um lindo céu cheio de estrelas, onde a Lua é a rainha, emanando um feixe de luz que ilumina o mar, que passa também a emitir uma suave luminosidade fosforescente. Próximo, um velho farol que há muito está sem uso, mas saindo dele, percebe-se a aproximação lenta e ritmada de uma entidade, que vem como um velho marujo, com os cabelos brancos sobressaindo na face escura, como um Pai Velho.

È uma entidade ligada ao Senhor Obaluaiê, que vem para descarregar filho de Umbanda, restaurar suas forças, reequilibrar seus chacras. Prefere fazê-lo junto à Calunga Grande, que é também seu território, e prefere transportar o médium até aquelas paragens, longe do terreiro material. Ali aconselha, energiza, alinha as linhas de força, emite vibrações de Serenidade e Equilíbrio.

É sabido que embora seja filho de Nanã, Obaluaiê foi criado por iemanjá, e sendo o mar a Calunga grande, não é de se estranhar que ele tenha seu povo próximo ao mar, junto às areias, próximo aonde foi achado por Iemanjá.

A entidade que chega para incorporar no médium, na linha do Senhor Obaluaiê, tem então a vestimenta espiritual de um velho marinheiro, a serviço do Senhor da Evolução dos Seres. Assim como chega, ao terminar sua energização, ele se vai, sem falar ou citar seu nome, mas antes, apenas “olha” profundamente nos olhos do médium desdobrado, como a pedir que nuca duvide, nunca perca a fé nesta poderosa magia, na força da cura, da renovação, e em todos os mistérios que perpassam pela vida de cada um, os quais precisam ser decifrados e vividos como parte da Evolução.

Atotô!!!

Alex de Oxóssi

Rio Bonito – RJ

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