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Nos Caminhos de Aruanda

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Certa vez, antes de dormir, como de costume rezei pedindo a Pai Oxalá orientação e firmeza de propósito naquilo que eu considerava como sendo um ideal para minha vida dali em diante. Durante a noite tive um sonho, o qual tentarei narrar:

Eu percorria um longo caminho de terra batida em meio a um vasto horizonte de vibrações salutares e energia harmoniosa. Podia divisar nove casas ao longo desta estrada iluminada pela luz divina, cada uma de um lado e, também cada qual com uma estrutura e irradiação especifica. Cheguei a primeira casa e, qual não foi minha surpresa, esta passava a mim uma energia forte, condensada; na porta duas espadas cruzadas determinavam que ali morava um guerreiro. No mesmo momento que pensei pude ver em pé na minha frente um enorme guerreiro, caracterizado com seu elmo, espada, escudo. Ajoelhei-me aos seus pés, pedindo-lhe a benção e ele empunhou sua espada sobre meu ombro e disse : “– Que meu Pai Ogum lhe abençoe hoje e sempre e que a força da Lei Divina esteja nos teus caminhos a te proteger eternamente. Siga teu caminho que Eu lhe acompanharei.” Levantei-me e partir muito emocionado.

Parti para a outra margem da estrada e cheguei diante da segunda casa. Uma casa feita de bambus, onde uma forte ventania recebeu-me. Os raios, trovões e tempestades despejavam no tempo uma descarga de energia incrível, jamais por mim ainda visto. Um raio amarelo cruzou os céus e parou diante da porta de entrada desta rústica casa, um roda moinho de vento e energia se fez presente como a me abençoar e proteger. Percebi ser a força sagrada de Mãe Iansã a me conduzir pelos meus caminhos e, principalmente por aquele caminho ao qual eu iniciava minha longa jornada. Sentindo-me guiado e fortalecido decidi partir para a próxima casa.

Diante da terceira casa, na margem contrária da casa de Iansã, um forte arrepio correu meu corpo por inteiro e uma vibração muito intensa apossou-se de mim. Era uma casa construída de pedras e sobre as rochas; suas estruturas eram firmes e sólidas, a energia que gerava produzia em mim um sentimento de proteção infinita. Vi-me em frente a porta, mas não tive coragem de chamar, gritar ou alerta a quem quer que fosse da minha presença ai. Cai de joelhos, a chorar e a pedir somente muita proteção e força, pois apesar de tudo sentia-me, em muitos momentos fraco e solitário. Não mais que de repente, vi um grande homem em pé, trazia no peito largo escudo e em ambas as mãos machadas de feitas de pedras. Ele cruzou minha cabeça com estas armas e disse, após meu pedido de benção : “- Que a justiça, a verdade e a sabedoria de meu Pai Xangô te abençoe e que a partir de hoje em teus caminhos e de todos aqueles que acompanharem estejam repletos de muita luz e força para que vençam juntos as imperfeições do corpo e do espírito. Siga já o caminho que é teu.” Abracei-o, como um filho abraça a um Pai e mais uma vez pedi-lhe proteção e determinação.

Continuei meu caminho, mas algo diferente me acontecia, a cada casa que passava algo mudava em mim. Sentia-me mais consciente da minha missão, mais resoluto daquilo que eu desejava e que tinha, também pedido. Antes de chegar a quarta casa, uma forte emoção tomou conta de meu espírito, comecei a chorar compulsivamente, um choro não de dor, mas de um forte amor que me envolvia. Quando percebi estava diante uma linda cachoeira, onde por detrás das águas doces desta cascata, escondia-se a casa por mim tão esperada. As lágrimas de amor corriam com tanta abundância que parecia que a cachoeira tinha transferido-se para meus olhos. De joelhos agradeci a Deus por estar diante do ponto de força de minha Mamãe Oxum, sim era Ela, a Deusa eterna do Amor Divino que vinha me receber e me abençoar com a doçura que somente Ela possui. Entre lágrimas, sorrisos e vibrações pedi a Senhora das Águas Doces que me fortalecesse, que lavasse minha coroa espiritual de todos os males do corpo e do espírito. Uma leveza espiritual tomou conta do meu ser e a energia Dela disse-me que seguisse e que sua proteção seria eterna, porque uma Mãe jamais deixa seu filho desamparado.

Seguindo para a outra margem da estrada, caminhei até a quinta casa, mas não era bem uma casa, mas uma linda choupana indígena, cercada de uma grande quantidade de árvores; a melhor visão deste ambiente seria o de uma choupana no meio de uma mata virgem. Diante da porta de entrada esperavam-me um grande guerreiro indígena, com seu cocar e saiote de penas de arara, com seu arco e flechas pendurados no ombro e uma lança em sua mão esquerda; ao seu lado um homem, caracterizado como a figura dos sertanejos brasileiros, era sim, um Boiadeiro típico, com seu chapéu de couro, seu laço a tiracolo e sua chibata pendurada na cintura. Os dois me olhavam fixamente. Abraçaram-me e o Caboclo disse : “- Meu filho, que a luz de nosso Pai Oxossi e a força de nosso Pai Ossain lhe proteja. Que em teu coração more o amor, na tua cabeça a paz e no teu espírito a força viva da caridade, nós estamos juntos de ti por toda a eternidade, caminhe conosco, pois estaremos sempre caminhando com você.” Uma linda estrela cruzou o céu, o Caboclo olhou-a e deu um longo assobio como a saldá-la. Seu Boiadeiro empunhou seu laço e apontou-me o caminho, o qual eu deveria continuar a caminhar.

Segui confiante para a sexta casa, localizada na margem oposta à casa de Pai Oxossi. Esta era uma casa construída por sobre as águas salgadas, era como se eu pudesse naquele momento estar diante de uma linda e imensa praia e, a casa feita sobre as ondas. Abaixei-me e, de forma a pedir as bênçãos daquelas águas, disse : “- Mar sagrado, fonte eterna da vida, permita que minhas preces seguem até a Deusa de toda esta imensidão sagrada, permita que meus pedidos seguem até Mãe Iemanjá, Senhora da Vida, Senhora de todos os Oris e fazei-me, minha Mãe, protegido e fortalecido pelo teu amparo e por teu eterno amor.” Como a sentir uma resposta vinda das ondas, que se tornavam, naquele momento, mas forte, Ela me disse : “- Que minhas águas salgadas lavem e limpem teu corpo espiritual e teus caminhos materiais; que a luz que brilha nos olhos de todo Povo do Mar brilhe, de hoje a sempre, em teu coração e, que sejas um farol a guiar os mais necessitados. Caminhe.” Mais uma vez pedi sua proteção e decidi continuar minha trajetória.

Alcançava a sétima casa e, algo magnífico surgia diante de meus olhos, podia ver uma linda lagoa de águas escuras e pacificas, que pareciam esconder mistérios espirituais. Um casebre de sapé jazia o centro desta lagoa e uma energia violeta corria em torno da mesma de forma muito intensa. Um misto de equilíbrio, harmonia e paz tomou conta de meu intimo, percebi estar no reino de Mãe Nanã Buruque e, assim ajoelhei-me e peguei um pouco de água com as mãos, jogando-a por sobre minha cabeça, rogando-lhe proteção, obtive como resposta um canto suave e doce : “- Nanã é uma Mãe / Pelos seus filhos Ela se dói / Dói, dói / Por seus filhos ela se dói.” Entendendo a mensagem do cântico, agradeci e continuei meus caminhos.

Chegava a oitava casa e, uma grande onda de alegria invadiu meu ser, como se eu passasse a participar, naquele instante de uma grande festa espiritual. Diante da oitava casa, pude perceber que não se tratava de uma casa comum, mas sim uma casinha feita de doces, num lindo jardim muito florido, onde diversas crianças brincavam de roda e cantavam cantigas infantis e inocentes. Quando me viram chamaram-me para participar com elas das brincadeiras que faziam. Brinquei muito, ri demais. Em um certo momento elas pararam de brincar e de cantar e dirigiram-se a mim, com algumas balas sortidas nas mãos e entregaram-me, dizendo: “- Titio, que a cada passo dado, o senhor, não esqueça de nós e, que se alguém lhe falar, fazer ou dedicar alguma coisinha que não goste, que o senhor coma uma dessas balas e peça a Papai Oxalá que adoce aquilo que pensaram do senhor e, que não permita que a tristeza apossasse do seu coração, do seu espírito e dos seus caminhos.” Tomaram-me a benção e voltaram a brincar como antes. Era hora de partir, já que alcançava a última casa daquele longo caminho.

Enfim, aproximei-me da última casa, a de número nove. Era uma casa diferente das demais, era muito simples, muito humilde, muito pobre; paredes de barro, chão de terra batida. A porta estava encostada, como já a me esperar. Entrei, numa mistura de curiosidade e apreensão. Quando entrei fui levado a uma outra dimensão, se assim posso dizer e me vi num campo aberto, onde uma enorme fogueira clareava e esquentava diversas figuras humanas que estavam a seu redor, sentadas em troncos de madeira estirados no chão de terra. Sim, estava numa grande senzala, aquelas do tempo da escravidão. As pessoas sentadas eram Pretos e Pretas Velhas a fumarem seus cachimbos, cigarros de palha e, a mascar seus fumos de rolo.  Senti-me muito emocionado, porque estava no Reino das Almas. Ao fundo ouvia uma melodia sendo entoada, sim, era um ponto de senzala, que fazia alusão ao dia da libertação, ao dia 13 de maio. Aproximei-me de um Velho Preto, que sentado no seu toco, fumando seu cachimbo, sorria como se estive me esperando e, estava. Abaixei-me e lágrimas correram em meus olhos; não conseguia falar. Ele a entender minha dificuldade momentânea, segurou minha mão, abraçou-me e disse em tom firme e calmo : “- Meu fio,  que a luz de Pai Zambi te abençoa e que a força de minha senzala te alumei nos caminhos teus. Chega ao que te parece último canzoa, mas que não é, por isso te dou a primeiro conselho, nunca pense que já sabe tudo, porque estará vos mercê sempre a aprender. Venha comigo.” Levantou-se e puxando calmamente minha mão conduziu-me ao meu já conhecido caminho. Lá fora todos aqueles que me recepcionaram em todas as casas estavam a me esperar. Pediu Ele que eu olhasse para frente, olhei, e por detrás das nuvens uma forte luz cobria todo o horizonte. Aos poucos esta luz foi dando lugar a uma nova casa construída com todos os elementos principais das outras casas. O Preto Velho conduziu-me até ela e lá chegando surpreendi-me com a beleza energética contida em todo seu vasto salão. A entidade anfitriã, humildemente, disse-me : “- Meu fio, este é o seu canzoa, construído com o fundamento de cada Orixá e iluminado pela nossa Lei de Umbanda. Aqui a caridade deve morar eternamente e o amor fortalecer todos os corações e espíritos que por aqui passarem. Nós, todos nós, estaremos sempre ao lado da família que aqui fizer morada. Este é o canzoa que pediste a Pai Oxalá e, ele te é entregue pelas mãos da humildade, verdade e caridade, figuradas na imagem de São Francisco de Assis.

Centro de Umbanda Caminhos de Aruanda

Gregório Brandão – Rio de Janeiro – RJ

Fonte de Pesquisa:

http://72.14.205.104/search?q=cache:KEJVtMEAv8UJ:www.aevb.org/index2.php%3Foption%3Dcom_content%26do_pdf%3D1%26id%3D90+%22nos+caminhos+de+Aruanda%22&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=3

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