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A essência em detrimento das formas

terça-feira, maio 26th, 2009

Dona Margarida era uma senhora que já passava dos sessenta anos de idade, embora seu dinamismo não demonstrasse, aparentando ser muito mais jovem. Sempre alegre, disposta e conversadeira, era conhecida e querida por todos do bairro onde morava. Parteira aposentada, trabalhara como enfermeira num hospital público por muitos anos e vivia modestamente fazendo um trabalho voluntário na creche perto de sua casa.

Nunca havia parido, mas considerava-se meio-mãe de quase uma centena de crianças.

Certo dia, observando, da janela de sua casa, a meninada brincar na rua, percebeu que uma senhora distinta e desconhecida, ao chegar próximo de seu portão, benzeu-se com o sinal-da-cruz e atravessou a rua rapidamente. Estranhou o gesto e até desceu a rua para verificar se havia algo estranho por ali, nada observando. Curiosa, perguntou a um dos meninos se conhecia aquela senhora, e foi informada de que se tratava de moradora nova do bairro. Ainda segundo o menino, soube que era uma carola da Igreja .

Dona Margarida, em sua simplicidade, não deu mais importância ao fato, até o dia em que, entrando na quitanda de seu Zé, encontrou-se com a senhora e pôde perceber seu mal-estar com sua presença. A mulher rapidamente deu-lhe as costas e outra vez fez o sinal-da-cruz disfarçadamente. Foi impossível não se sentir embaraçada com aquilo, e, quando ela saiu, comentou com seu Zé e foi informada:

− Seu nome é Eleonora, professora aposentada. Hoje ela se dedica em tempo integral à Igreja Católica , coordenando vários setores dos trabalhos prestados nas capelas. Comentou com minha esposa que fez um levantamento aqui em nosso bairro para avaliar o número de famílias Católicas . Vai cadastrar todas e fazer apelo para que compareçam à missa todos os domingos, além de pedir que se desvinculem das visitações ao Centro de Umbanda a que estão acostumados, pois, segundo ela, “é prática primitiva e perdição dos cristãos”.

Estava explicado! Dona Margarida era a dirigente do terreiro de Umbanda onde as pessoas buscavam ajuda, não importando a religião que seguiam. Um misto de tristeza e pena foi o que passou pelo coração de dona Margarida, mas, como não sabia guardar mágoas, logo esqueceu.

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